um conto
Coroação
Era dia de coroação. Dalila ia ser anjo. Eu estaria na fila que levaria as rosas a Nossa Senhora. Ensaiamos a semana inteira. Uma euforia, aplacada pela repetição dos passos e pela rispidez de pró Eulália, nos tomava por nos livrarmos cedo da aula. Eu na fila com os outros meninos fazendo que tava levando as flores e a coroa e ela no altar esperando o momento de coroar a Santa. De tarde, no quintal, repetíamos, deixando de lado outras brincadeiras que inventávamos com meus carrinhos e suas bonecas. Sempre brincavamos juntos. Minha tia morava do lado de minha casa. Crescemos brincando naquele mundo que era os fundos de nossas casas.
A igreja estava lotada. Eu, cedo, tive que vim ficar na fila. Minha mãe passou minha roupa e mandou que me apressasse. Vesti a calça que já não me cabia e deixava de fora uns dedos da canela e a camisa que apertava meus braços finos. Ela penteou meu cabelo e me mandou vir. Não via Dalila. De tarde, brinquei sozinho no quintal como da outra vez que minha tia pegou a gente no cantinho atrás da mangueira. Tia Rita ralhou com a gente, deu umas boas palmadas em Dalila e a levou para dentro de casa. Vários dias, tive que inventar sozinho minhas brincadeiras.
O altar ainda estava vazio e o lugar onde ela sentaria para coroar a santa. Minhas pernas doíam e nada de começar a reza. De vez em quando, apoiava-me mais em uma perna. Vinha pró Eulália; largava um daqueles beliscões e dizia: “Isso lá é jeito de ficar na igreja menino”. E o tempo me enchia de reclamações e ralhos.
“Maria, mãe, mulher...” Começou o primeiro hino que parecia não acabar mais. E nada de Dalila. “Onde ela está?”. Eu me perguntava, sabendo que sua demora aumentaria meu sofrimento naquela fila, pois o tempo se alongaria em hinos e rezas e nas dores em minhas pernas. Só pensava em ir para casa. E minha mãe ali me olhando orgulhosa e censurando as descansadas de pernas que eu dava. Lembro de que ela dizia sempre “meu filho todo sacrifício para Deus é pouco. Depois você descansa”. Eu nunca entendi direito o que ela falava, mas não tinha jeito. Tinha que ficar na fila, era obrigado por ela e pela professora, senão repetiria o ano.
Depois de mais um hino, veio o padre com um sermão interminável. Não entendia nada do que dizia e só recordo da palavra inferno que repetira tantas vezes, veementemente. Minha mãe olhava para mim confirmando suas palavras. Eu já temia o significado daquela palavra e me endireitava na fila.
Outro hino e Dalila entrou. Vinha numa túnica de ceda branca com asas de papelão nas costas e uma auréola de papel crepom amarelo. Era a primeira vez que eu via o negror de seus cabelos escorridos, os dois pontinhos escuros em relevo na roupa alva, o corpo que dançava dentro dela e a calcinha branca que transparecia na brancura do tecido, delatando a largura de suas ancas. Dalila seguia em seu novo andar, mais firme. Olhava-a passar, entorpecido. Ela subiu no altar e abriu as pernas para acomodar a cabeça da santa. Foi, então, que tentei descobrir o mundo escuro entre elas e desejei estar no lugar da santa. Nem me preocupei com os conselhos de minha mãe sobre as heresias. Se o inferno fosse Dalila, mergulharia de cheio.
Já não me doíam as pernas. Novas sensações tomaram meu corpo. E foi a primeira vez que tive vergonha das minhas calças curtas e da camisa que apertava meus braços. Sentir algo que nunca tinha sentido, algo húmido que escorreria sobre minha perna e denunciaria minha heresia. Olhava para o sem – fim entre as pernas de Dalila, enquanto um torpor mais grave me tomava o corpo e escorreu mais forte entre minhas pernas. Olhei minha mãe e parecia que o inferno seria mais cruel para mim. Balbuciei algumas palavras de perdão e as pernas voltaram a doer. Só Dalila continuava com a santa.
Quando terminou a coroação nos encontramos na porta da igreja ela com sua mãe e eu com a minha. Ainda estava de anjo. Fomos juntos para casa. Não a olhei nos olhos, quando ela pegou em minha mão e não disse uma palavra enquanto ela falava de brincarmos amanhã no quintal. Foi, então, que percebi que tinha perdido a Dalila que brincava comigo no quintal.
Paulo André/ Julho de 2005.
Escrito por Nome às 14h45
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